Se costuma consultar fichas técnicas de tintas industriais, navais ou de proteção anticorrosiva, é possível que já tenha encontrado expressões como “curado com poliamina”, “epóxi curado com poliamina” ou “epóxi curado com aduto de poliamina”.
Mas sabe o que significam estas designações? Qual é a função da poliamina e que influência pode ter nas características de uma tinta?
Nos revestimentos de proteção, a indicação “curado com poliamina” surge frequentemente associada a tintas epóxi bicomponentes (2K). Nestes produtos, um agente de cura à base de poliamina reage quimicamente com a resina epóxi após a mistura dos componentes, contribuindo para a formação de uma estrutura polimérica reticulada.
A poliamina desempenha, portanto, um papel fundamental no processo de cura. No entanto, não determina, por si só, todas as propriedades da tinta. Neste artigo vamos perceber porquê.
O que significa "curado com poliamina"?
Uma tinta epóxi bicomponente é fornecida em duas partes que devem ser misturadas antes da aplicação.
De forma simplificada, encontramos normalmente:
- Um componente que contém a resina epóxi, podendo incluir pigmentos, cargas, solventes e outros constituintes;
- Outro componente que contém o agente de cura ou o endurecedor.
Quando o agente de cura é baseado numa poliamina adequada, os grupos amínicos reativos participam numa reação química com os grupos epóxi da resina.
Durante esta reação ocorre a abertura dos anéis epóxido e formam-se novas ligações químicas. À medida que a reação avança, desenvolve-se uma rede polimérica tridimensional e reticulada, responsável por grande parte das propriedades do revestimento depois de curado.
Neste tipo de sistemas, a cura não resulta apenas da evaporação da água ou dos solventes. Nos produtos que contêm solventes, estes evaporam durante a secagem, mas a formação final do revestimento depende também da reação química entre a resina e o agente de cura.
É também por este motivo que a proporção da mistura indicada pelo fabricante deve ser respeitada. Adicionar mais endurecedor não significa, necessariamente, uma secagem mais rápida. Na verdade, uma relação de mistura incorreta pode comprometer a reação química e prejudicar as propriedades finais do revestimento.
O que é uma poliamina?
No contexto dos revestimentos, a designação poliamina é utilizada para agentes de cura amínicos que possuem vários grupos ou funções amina capazes de participar em reações químicas.
Existem diferentes famílias e estruturas de aminas utilizadas na formulação de agentes de cura para epóxis, incluindo aminas alifáticas, cicloalifáticas e diferentes produtos modificados.
Também existem adutos de poliamina, que resultam de uma modificação prévia do agente de cura.
Esta diversidade é importante porque duas tintas identificadas como “curadas com poliamina” não têm necessariamente o mesmo comportamento.
A resina epóxi, o agente de cura concreto, os pigmentos, as cargas, os solventes, os aditivos, o teor de sólidos e os restantes elementos da formulação influenciam as propriedades do produto final.
A poliamina é um catalisador?
A utilização da palavra “catalisador” é bastante frequente no setor das tintas para designar genericamente o segundo componente de um produto bicomponente.
Do ponto de vista químico, porém, no caso de um sistema epóxi curado com uma poliamina reativa, as designações “agente de cura” ou “endurecedor” são normalmente mais rigorosas.
Isto acontece porque a poliamina participa diretamente na reação com a resina epóxi e passa a fazer parte da estrutura polimérica formada durante a cura.
Um catalisador desempenha uma função diferente: aumenta a velocidade de uma reação sem ser consumido estequiometricamente da mesma forma que um reagente.
Existem, aliás, determinadas aminas, como algumas aminas terciárias, que podem ser utilizadas como catalisadores ou aceleradores em sistemas epóxi.
Por isso, em bom rigor, amina, agente de cura e catalisador não devem ser utilizados como sinónimos.
Que vantagens podem oferecer as tintas epóxi curadas com poliamina?
Aqui é preciso ter algum cuidado, porque não é tecnicamente correto afirmar que todas as tintas curadas com poliamina apresentam automaticamente determinada resistência química, mecânica ou anticorrosiva.
As referidas propriedades pertencem ao produto formulado e ao sistema de pintura completo, e não apenas ao tipo de agente de cura.
Podemos, contudo, afirmar que os agentes de cura à base de poliaminas são amplamente utilizados na formulação de revestimentos epóxi de elevado desempenho.
Existem no mercado epóxis curados com poliamina desenvolvidos para oferecer, entre outras características:
- Elevada resistência mecânica e à abrasão;
- Resistência a determinados agentes químicos;
- Resistência à água e à água do mar;
- Proteção anticorrosiva;
- Possibilidade de aplicação em elevadas espessuras;
- Utilização em determinados ambientes de imersão;
- Elevada aderência a suportes devidamente preparados.
Contudo, estas características não são universais.
Por exemplo, o facto de uma tinta ser curada com poliamina não significa necessariamente que possa permanecer em imersão permanente, resistir a qualquer produto químico ou ser adequada a uma determinada categoria de corrosividade.
A utilização prevista e as propriedades de cada produto devem ser sempre confirmadas através da respetiva documentação técnica.
Que exemplos de tintas curadas com poliamina existem?
No catálogo da Tintas e Pinturas encontram-se diferentes exemplos de revestimentos epóxi cuja cura envolve poliaminas ou adutos de poliamina. As suas características e aplicações ajudam também a demonstrar que “curado com poliamina” não corresponde a um único tipo de tinta nem determina, por si só, o desempenho final do revestimento.
Na gama Hempel, o Hempadur 35560 é um revestimento epóxi de elevada espessura, isento de solventes e curado com aduto de poliamina. Está recomendado, entre outras utilizações, para o revestimento de tanques e tubagens de água potável e para zonas sujeitas à abrasão ou a ambientes altamente corrosivos.
Outro exemplo é o Hempadur Speed-Dry ZP 650 17650, um epóxi bicomponente de elevada espessura e secagem rápida, curado com aduto de poliamina. Contém óxido de ferro micáceo e fosfato de zinco e foi desenvolvido para a proteção de estruturas em aço quando se pretende uma secagem rápida para manuseamento e intervalos de repintura reduzidos.
Também da Hempel, o Hemudur 18500 é um primário epóxi aquoso bicomponente curado com poliamina, que contém fosfato de zinco como pigmento inibidor da corrosão. O fabricante recomenda-o como primário de uso geral para construções em aço.
Na gama Jotun, o Jotamastic 90 é um revestimento epóxi mástique bicomponente curado com poliamina, de elevado teor de sólidos e elevada espessura. Trata-se de um produto tolerante à superfície e resistente à abrasão, desenvolvido principalmente para trabalhos de manutenção e reparação e que pode integrar sistemas de proteção em ambientes atmosféricos ou imersos.
Também da Jotun, o Tankguard 412 é um revestimento epóxi bicomponente, isento de solventes e curado com poliamina, desenvolvido para o revestimento interior de tanques. Pode ser utilizado como primário, camada intermédia ou acabamento e possui aplicações específicas em tanques de água doce, água potável, águas cinzentas e petróleo bruto, de acordo com as condições e aprovações indicadas pelo fabricante.
Estes exemplos mostram novamente por que motivo não devemos interpretar a expressão “curado com poliamina” como uma especificação de desempenho. Dentro desta mesma família de química de cura encontramos produtos destinados à manutenção anticorrosiva, ao revestimento de tanques, à proteção de estruturas metálicas e a aplicações em que a rapidez de secagem assume particular importância.
A aplicação adequada de cada produto deve ser sempre confirmada através da respetiva ficha técnica e da especificação do sistema de pintura.
O que é o aduto de poliamina?
Ao consultar uma ficha técnica poderá encontrar a expressão “curado com aduto de poliamina”.
Um aduto de poliamina é um agente de cura amínico previamente modificado através de uma reação química controlada.
No contexto dos sistemas epóxi, esta modificação pode envolver, por exemplo, uma reação parcial da amina com compostos epoxídicos antes da utilização do agente de cura no produto final.
Através destas modificações é possível ajustar diferentes características do sistema, como a reatividade, a viscosidade, a relação de mistura, o tempo de utilização da mistura ou o comportamento durante a cura.
Por isso, uma poliamina e um aduto de poliamina não devem ser considerados exatamente a mesma coisa.
A designação utilizada pelo fabricante na ficha técnica permite identificar com maior precisão o tipo de tecnologia presente no produto.
Poliamina e poliamida são a mesma coisa?
Não. Poliaminas e poliamidas correspondem a famílias diferentes de agentes de cura utilizados em sistemas epóxi.
Muitos agentes de cura poliamídicos utilizados na indústria dos revestimentos resultam da reação entre compostos amínicos e ácidos gordos dimerizados.
Embora a sua produção possa envolver poliaminas, as poliamidas constituem uma família química distinta.
Assim, as expressões “epóxi curado com poliamina” e “epóxi curado com poliamida” não devem ser consideradas equivalentes.
Existem tendências diferentes de desempenho entre estas famílias de agentes de cura, mas seria incorreto definir uma delas como universalmente melhor do que a outra.
A seleção deve ser feita com base nas propriedades concretas do produto e nas condições de aplicação e serviço.
As tintas curadas com poliamina são sempre epóxi?
Não. As poliaminas não são utilizadas exclusivamente na química dos epóxis. Contudo, nas fichas técnicas de revestimentos industriais e marítimos, a expressão “curado com poliamina” aparece com muita frequência associada a sistemas epóxi bicomponentes.
As aminas desempenham também um papel importante noutra família de revestimentos: as poliureias.
Nestes sistemas, um componente que contém grupos amina reage com um componente à base de isocianato, formando predominantemente ligações ureia.
Esta reação deve ser distinguida da química característica dos poliuretanos convencionais, nos quais grupos hidroxilo de um poliol reagem com grupos isocianato, formando ligações uretano.
Existem ainda sistemas híbridos que combinam características ou componentes associados às tecnologias de poliureia e poliuretano.
Por esse motivo, não é tecnicamente aconselhável utilizar a expressão “poliuretano curado com poliamina” como equivalente genérico de “epóxi curado com poliamina”.
A classificação correta depende sempre da composição e da química efetiva do sistema.
O que é um primário curado com poliamina?
A expressão "curado com poliamina" também pode surgir na descrição de alguns primários.
Um primário epóxi curado com poliamina é, de forma simplificada, um primário em que uma resina epóxi reage com um agente de cura à base de poliamina.
A palavra “primário” identifica a função que o produto desempenha no esquema de pintura.
A expressão “curado com poliamina” fornece informação sobre a sua química de cura.
Dependendo do produto, estes primários podem ser utilizados como primeira camada de sistemas anticorrosivos destinados a estruturas metálicas, equipamentos, embarcações ou outras superfícies.
Existem também revestimentos epóxi multifunções capazes de atuar, consoante a especificação, como primário, camada intermédia ou mesmo como sistema de demão única.
A função concreta deve ser sempre confirmada na ficha técnica dos produtos.
Onde são utilizadas tintas epóxi curadas com poliamina?
Existem produtos desta natureza destinados a diferentes aplicações, entre as quais:
- Estruturas metálicas;
- Sistemas de proteção anticorrosiva;
- Instalações e equipamentos industriais;
- Embarcações;
- Estruturas marítimas e offshore;
- Tanques;
- Tubagens;
- Determinados ambientes de imersão;
- Pavimentos e outras superfícies em betão.
Esta listagem representa possíveis aplicações de produtos existentes no mercado, e não aplicações automaticamente válidas para qualquer tinta curada com poliamina.
Um produto indicado para exposição atmosférica pode não ser adequado para imersão. Da mesma forma, um revestimento resistente a determinado produto químico pode não resistir a outro.
A ficha técnica e, quando aplicável, as tabelas de resistência química devem ser sempre consultadas.
Que cuidados exige a aplicação de uma tinta epóxi curada com poliamina?
Como acontece com outros revestimentos técnicos bicomponentes, a qualidade do resultado depende tanto da seleção do produto como da correta aplicação.
Entre os parâmetros que devem ser verificados encontram-se:
- Preparação e limpeza da superfície;
- Proporção correta entre os componentes;
- Método de mistura;
- Eventual tempo de indução;
- Tempo de utilização da mistura ou pot life;
- Temperatura do produto, suporte e ambiente;
- Humidade relativa;
- Possibilidade de condensação;
- Espessura de película especificada;
- Intervalos mínimos e máximos de repintura;
- Método de aplicação;
- Condições necessárias para atingir a cura prevista.
A preparação da superfície assume particular importância nos sistemas de proteção anticorrosiva. Um revestimento de elevado desempenho aplicado sobre uma superfície mal preparada pode não atingir o comportamento previsto pelo fabricante.
O que é o amine blush?
Algumas formulações epóxi curadas com aminas podem apresentar um fenómeno superficial conhecido como amine blush.
Este fenómeno está associado à presença de compostos amínicos na superfície e à sua interação com humidade e dióxido de carbono, podendo ocorrer a formação de espécies de carbamato.
Condições de baixa temperatura e humidade elevada podem favorecer o fenómeno em sistemas suscetíveis.
O amine blush pode manifestar-se através de uma película superficial baça, esbranquiçada, oleosa ou cerosa e pode prejudicar a aderência de uma camada posterior caso a superfície não seja devidamente preparada antes da repintura.
A suscetibilidade varia consideravelmente entre formulações.
Por isso, devem ser sempre respeitadas as condições de aplicação e repintura indicadas pelo fabricante e, caso seja detetada contaminação superficial, deve seguir-se o procedimento de limpeza ou preparação recomendado.
Como saber se uma tinta curada com poliamina é adequada ao meu projeto?
A indicação “curado com poliamina” não deve ser utilizada isoladamente como critério de seleção de uma tinta.
Antes da especificação de um revestimento devem ser considerados fatores como:
- Natureza e estado do substrato;
- Preparação de superfície possível;
- Ambiente de exposição;
- Categoria de corrosividade;
- Existência ou não de imersão;
- Exposição a produtos químicos;
- Resistência mecânica necessária;
- Temperatura de serviço;
- Espessura do sistema;
- Compatibilidade entre diferentes demãos;
- Acabamento pretendido;
- Requisitos regulamentares ou certificações aplicáveis.
A escolha deve partir destes requisitos e das características documentadas do produto.
Perguntas frequentes sobre tintas curadas com poliamina
O que significa “curado com poliamina”?
Significa que uma poliamina participa como agente de cura na reação química responsável pela formação do revestimento. Nos revestimentos de proteção, esta designação aparece frequentemente associada a sistemas epóxi bicomponentes.
O que é uma tinta epóxi curada com poliamina?
É um sistema epóxi em que o agente de cura contém uma poliamina adequada à reação com os grupos epóxi da resina. Depois da mistura dos componentes ocorre uma reação de reticulação que conduz à formação do revestimento curado.
A poliamina é o catalisador da tinta?
Catalisador não é a designação mais rigorosa nos sistemas epóxi em que a poliamina reage diretamente com a resina. Nestes casos, deve falar-se preferencialmente em agente de cura. Existem, contudo, outras aminas que podem desempenhar funções catalíticas em determinadas formulações.
O que é um aduto de poliamina?
Um aduto de poliamina é um agente de cura amínico que foi previamente modificado através de uma reação química controlada. Esta modificação permite alterar determinadas características do agente de cura e do sistema em que será utilizado.
Poliamina e poliamida são a mesma coisa?
Não. São famílias distintas de agentes de cura utilizadas em sistemas epóxi e não devem ser tratadas como designações equivalentes.
Uma tinta curada com poliamina é melhor do que outra tinta epóxi?
Não necessariamente. O agente de cura é apenas uma das variáveis da formulação. A adequação de um produto depende das suas propriedades completas e das condições concretas de aplicação e serviço.
Posso colocar mais endurecedor para a tinta secar mais depressa?
Não. A proporção de mistura definida pelo fabricante deve ser respeitada. Alterar arbitrariamente a relação entre os componentes pode provocar uma cura inadequada e comprometer o desempenho do revestimento.
Uma poliureia também pode utilizar poliaminas?
Sim. Nos sistemas de poliureia, componentes contendo grupos amina reagem com grupos isocianato, formando predominantemente ligações ureia. Trata-se de uma tecnologia diferente da cura de uma resina epóxi com poliamina.
Precisa de ajuda para escolher uma tinta ou um sistema de proteção?
Saber o que significa “curado com poliamina” ajuda a interpretar uma ficha técnica, mas essa informação representa apenas uma parte daquilo que deve ser analisado antes de escolher uma tinta.
Na Tintas e Pinturas trabalhamos há mais de 30 anos com soluções de pintura e proteção anticorrosiva para os setores industrial, naval e da construção civil.
A experiência simultânea na comercialização e aplicação de revestimentos técnicos permite-nos analisar as necessidades de cada projeto e apoiar a seleção de produtos e sistemas adequados ao substrato, ao ambiente de exposição e às condições de serviço.
Se encontrou numa ficha técnica ou especificação a indicação “curado com poliamina” e tem dúvidas sobre se essa é a solução mais adequada para o seu projeto, entre em contacto connosco.



